Tempo de rever projetos de vida - Magali Cunha

Vivemos o tempo da Quaresma. Estou entre os poucos evangélicos que tiveram chance de aprender e valorizar este período como oportunidade de revisão da vida. Digo isto porque, por conta de sua história e teologia, a maior parte das igrejas evangélicas no Brasil desconsidera o calendário litúrgico cristão e seus ensinamentos.

Os 40 dias, Quaresma, que antecedem a Páscoa, procuram recuperar o sentido do número 40 registrado nos textos sagrados. Da narrativa do dilúvio, passando pelo tempo de viagem do povo hebreu no deserto, do Egito à Terra Prometida, ao número de dias que Jesus passou no deserto antes de iniciar sua intensa vida pública, são muitas as referências ao 40 na Bíblia cristã. Em todas, o número revela não um tempo cronológico exato, mas um momento vivido na sua completude, que, frequentemente, marca decisões e mudanças.

É por isso que um dos textos mais importantes para reflexão durante a Quaresma é a narrativa sobre Jesus no deserto, conhecida como “As tentações de Cristo”. O texto conta que, quando retirado para um momento de preparação, Jesus foi tentado três vezes pelo Diabo. As três tentações representavam desafios e, se respondidos como sugerido pelo Diabo (do grego diabolos, caluniador, opositor), dariam novo rumo às ações do Nazareno. São elas: transformar pedras em pães, receber autoridade e poder sobre todos os reinos do mundo (no caso, o romano), subir ao ponto mais alto do templo de Jerusalém e se jogar para que anjos o amparassem.

É interessante: basta uma simples pesquisa para perceber que, no universo religioso cristão, quando se prega e ensina sobre “tentação”, os desafios a serem superados são fundamentalmente relacionados ao controle do corpo e do prazer que ele dá. Nesse caso, tentações passam pelo sexo fora do casamento legalizado, pelo adultério, pelo consumo de bebida alcoólica e de fumo, pelo lazer fora dos espaços considerados sagrados. Neste último, está a participação em festas populares e em espaços relacionados à música popular e à dança, em alguns casos, até mesmo ao cinema, ao teatro e ao futebol. Isto tem relação com a moralidade católica conservadora e com o puritanismo evangélico trazido ao Brasil por missionários do Sul dos EUA.

No entanto, aprendi, neste mesmo contexto evangélico, a ler a Bíblia com outros olhos. O que a narrativa das tentações chama a atenção mesmo é para as propostas da parte da oposição (Diabo) ao projeto de ação de Jesus. Primeiro, transformar pedras em pães, em um mundo de famintos, a fim de atrair consumidores de religião sem conteúdo, ocultando a justiça social na busca pelo “pão”. Também a autoridade e o poder sobre os reinos do mundo, mantendo-se na lógica da dominação, da violência e da exploração. E, por fim, se jogar do ponto mais alto do templo para ser aparado por anjos, oferecendo um grande show da fé, e atrair e distrair multidões.

Segundo os Evangelhos, Jesus de Nazaré disse “não” a tudo isto, em nome do seu projeto de fé, que implicava partilha e vida comunitária, compromisso radical com a paz e a justiça, e simplicidade, despojamento e solidariedade. Não é preciso muito esforço para avaliar que há muitas lideranças religiosas de hoje dizendo “sim” às propostas-tentações de religião de sucesso, assistencialismo, espetáculo e sede de poder eclesiástico e político-partidário.

Neste sentido, a Quaresma torna-se uma oportunidade para pessoas religiosas, mas também uma inspiração para as que não são. A partir do exemplo de Jesus, tomar este período para ser vivido na sua completude. Um momento de decisões e de mudanças. Tempo de reafirmar projetos de vida ou revê-los, mas com um sentido profundo: se opor às tentações, rejeitando aquilo que compromete a paz com justiça e nossa autenticidade e dignidade.

Fonte: CEBI Nacional