Se eu pudesse, não caía na tua - Romi Márcia Bencke. Reflexão a partir de Mt 10, 40-42.

Não faltam, hoje em dia, propostas, convites, alguns bastante atrativos, para que pessoas encontrem Jesus e transformem suas vidas. Promessas abundantes de fartura, prosperidade, felicidade, vida sem sofrimento: todas fazem parte das estratégias de vender o que é uma “vida nova em Jesus”.

Aliada a muita comunicação e imagem, cada uma destas promessas vem acompanhada de belas paisagens e rostos de pessoas felizes. Há momentos em que as imagens são tão alvissareiras que olhá-las quase causa uma depressão e um certo sentimento de frustração. Quem dera alcançar esta felicidade e realização plena que alguns já encontraram! 

Todas estas abordagens fazem parte de bem pensadas estratégias de missão. Missão e propaganda ocorrem de forma simbiótica. 

Estas certezas tão firmes e repletas de uma felicidade tão equilibrada e perfeita se fragilizam quando lemos, por exemplo, em 1 Co 1.27 que diz: “Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte”. 

Parece que Deus fala de uma forma menos “marqueteira” e um pouco menos certinha. A mesma sensação se tem quando a leitura é o pequeno texto do Evangelho de Mt 10.40-42. Ali se diz que acolher Deus faz parte de uma intricada rede de relações humanas que, geralmente implica em corresponsabilidades, desprendimentos, entregas. Encontros e desencontros também estão implícitos na tentativa de chegar a Deus.

Missão parece não ter muito a ver em optar por um Deus tão cheio de recompensas e instrumentos que facilitarão a nossa realização material. Ao contrário, parece mais ter relação com restaurações, ou seja, com experiências que procuram recuperar laços e relações que foram rompidas pela incapacidade humana de experimentar os desprendimentos necessários para que a humanidade encontre a tão almejada, mas difícil, vida em justiça e plenitude.

A busca por Deus é complexa e repleta de nuances. Não há ausência de conflitos e nem ausência de imperfeições na busca por Deus. 
Missão, neste caso, mais do que falar de Deus, significa falar com Deus e abrir-se para um constante “desvencilhar” de nós mesmos: de nossas verdades pré-concebidas, de nossas certezas, de nossos conceitos imutáveis e de nossas fronteiras bem delimitadas. Não há certezas na experiência de ir ao encontro de Deus. Ao contrário, há mais incertezas e loucuras nesta busca.

O caminho é mais tortuoso do que imaginamos. Por isso, talvez, se soubéssemos, pensaríamos duas vezes antes de “cair na proposta de Deus”. 
Neste caminho, perdemos este Deus recompensador. Só que, como canta Chico Buarque…

Depois de te perder, 
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguiremos
como encantados ao lado Teu.

Romi Márcia Bencke (Pastora IECLB, secretaria geral CONIC e autora do livro Ecumenismo e Feminismo)

Fonte: CEBI Nacional